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Análise: Messi foi o sonho acordado dos argentinos que todo torcedor queria viver

07/10/2026

Análise: Messi foi o sonho acordado dos argentinos que todo torcedor queria viver

Estádio Monumental de Núñez, Buenos Aires, Argentina. Terça-feira, dia 6 de outubro de 2026. Cada minuto consumido no relógio do árbitro Fernando Vejar Diaz era um lembrete de que o fim estava mais próximo. Cada vez que Messi tocava na bola, era como despertar para a certeza de que aquela cena, repetida tantas vezes durante mais de duas décadas, estava entrando definitivamente para o passado.

Nas arquibancadas lotadas, os rostos ajudavam a contar a história. Havia festa, cânticos, celulares erguidos, dor e também lágrimas, como em um resumo do que foram os pouco mais de 20 anos de Messi com a camisa argentina.

Era como se cada batida do relógio fosse uma martelada a despertar os argentinos para a certeza de que o sonho acordado estava chegando ao fim.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano definiu Diego Armando Maradona como "o mais humano dos deuses". A frase atravessou gerações porque Diego talvez tenha sido exatamente isso para a Argentina: alguém capaz de produzir algo divino com uma bola nos pés, mas que carregava todos os excessos e contradições de um homem.

Messi percorreu outro caminho.

Se Maradona foi o mais humano dos deuses, Messi foi o mortal que levou os argentinos ao paraíso nos tempos modernos.

Durante muito tempo, porém, a relação esteve longe de ser tão simples.

O menino que saiu cedo de Rosario, cresceu em Barcelona e conquistou praticamente tudo na Europa precisou passar anos ouvindo que lhe faltava justamente aquilo que parecia impossível exigir de alguém: ser Maradona. Vieram as derrotas em finais, as comparações, as críticas, uma renúncia à seleção e o retorno.

Até que Argentina e Messi finalmente se encontraram. Ou, talvez, os argentinos finalmente tenham reconhecido em Messi o sangue argentino que durante tantos anos cobraram dele.

Vieram a Copa América, a Finalíssima, as respostas atravessadas ("qué mirás, bobo?") e, principalmente, a Copa do Mundo de 2022. A imagem de Messi levantando a taça que durante tanto tempo pareceu persegui-lo mudou também a maneira como parte de seu próprio país enxergava sua história.

Ele já não precisava ser o próximo Maradona. Podia simplesmente ser Messi.

É difícil para muitos brasileiros torcer para a Argentina. Mais difícil ainda é admitir que torceu. Mas houve momentos nas Copas de 2022 e 2026 em que era difícil não abrir um sorriso de admiração com aquilo que Messi estava fazendo. É difícil admitir que, na nossa vez, o Pelé é argentino.

Mas esses momentos também ajudaram a compreender que alguns gênios, em algum momento, deixam de pertencer apenas ao lugar onde nasceram.

Ayrton Senna é um bom exemplo. É um dos maiores ídolos que o Brasil produziu e há algo semelhante nessa capacidade de atravessar fronteiras. Senna foi amado muito além do Brasil. Messi também conseguiu transformar admiração em afeto em lugares que, em teoria, deveriam enxergá-lo apenas como adversário.

Porque chega um ponto em que a camisa, a bandeira e até mesmo os nossos próprios olhos já não conseguem limitar o que estamos sentindo. Os argentinos perceberam isso talvez antes de todo mundo nesta despedida. Por isso choraram como Messi fez no gramado.

Não só pelo jogador que estava deixando a seleção. Também por tudo aquilo que partia com ele. Uma despedida assim nos obriga a perceber a passagem do nosso próprio tempo.

Durante anos, Messi esteve ali. Parecia permanente. Mas o tempo, o mesmo que corria no relógio do árbitro chileno Fernando Vejar Diaz, é implacável.

No último adeus, Messi fez o que tantas vezes pareceu transformar em rotina. Participou dos três gols da vitória por 3 a 0: serviu Otamendi, depois Nico Paz, e guardou para si o último. De pênalti, aos 25 minutos do segundo tempo, bateu no ângulo e correu para ser abraçado pelos companheiros.

O Monumental explodiu como se aquele gol pudesse, de alguma maneira, atrasar o relógio. Não podia. Foi o 126º e último de Messi pela Argentina. Até no fim, quando todos estavam ali para se despedir dele, Messi encontrou uma maneira de deixar mais uma lembrança aos argentinos.

Mas o jogo em si contra o modesto Benim pouco importa diante da trajetória e do que Messi representou para a Argentina. Foi apenas um encerramento festivo.

Se os sonhos, mesmo os mais inesquecíveis, um dia terminam, o dia 6 de outubro de 2026 será lembrado como o fim de um dos mais bonitos que os argentinos tiveram.

Um sonho que qualquer torcedor, em qualquer lugar do mundo, gostaria de ter sonhado acordado.

Mas que só os argentinos puderam viver.

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