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Aos 66 anos, pioneira no pole dance circus ressalta que idade nunca foi limitador: 'Enquanto eu tiver vida, vou estar no picadeiro'

01/10/2026

Aos 66 anos, pioneira no pole dance circus ressalta que idade nunca foi limitador: 'Enquanto eu tiver vida, vou estar no picadeiro'

"Mens Sana in Corpore Sano". O ditado popular apresentado pelo romano Juvenal em seu livro de poesias "Sátira X" remetia ao principal desejo que os cidadãos deveriam ter ao rezar para os deuses: um bom corpo e uma boa saúde. Essa é a máxima aplicada pela artista circense Odre Consiglio, de 66 anos.

Reconhecida por desenvolver um estilo único de pole dance, o pole dance circus, a artista integrou a Academia Piolin de Artes Circenses, pioneira no Brasil, e se destacou por sua forte relação com os esportes e atividades físicas. Ainda na ativa, ela segue disseminando seu conhecimento artístico pelos bairros de Salvador.

"Se Fernanda Montenegro está com quase 100 anos e está no palco, se Bibi [Ferreira] estava com quase 100 anos e estava no palco, como eu assisti aqui no TCA e foi impressionante... Então, enquanto eu tiver vida, eu vou estar no picadeiro".

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Para Odre, o avanço da idade nunca foi um limitador. Ela reconhece que há mais dificuldades na rotina, mas busca manter o corpo em atividade. "O segredo é ter paixão, quando estamos apaixonados pelo que fazemos, queremos continuar fazendo. Eu não me vejo sem isso", afirma, em entrevista ao g1.

Pioneirismo na arte

Odre lembra que o contato com o pole dance surgiu por acaso. Contratada para uma apresentação circense na Turquia, ela foi surpreendida com um pedido do contratante: um número artístico com uso da barra de pole dance. Nesse momento, a artista vislumbrou uma oportunidade de realizar números de circo sem precisar sair tanto do chão.

O plano deu certo. Foi ao mesclar seus saberes sobre o circo com a expressão corporal do pole que a artista desenvolveu o pole dance circus — uma variação do esporte tradicional que permite treinar o condicionamento físico onde o atleta estiver. Para isso, foi preciso adaptar a barra, geralmente fixa, em uma versão portátil que possibilita a locomoção necessária.

"O pole dance circus parte daí, de criar um sistema de condicionamento físico e fortalecimento, de uma maneira divertida e com um equipamento que eu posso montar em qualquer lugar".

Disseminação e construção de legado

Com a facilidade de acesso aos equipamentos, a artista oferece aulas em diferentes pontos de Salvador. Atualmente, ela ministra atividades às terças-feiras, no Largo 2 de Julho; às quartas, no Forte do Barbalho; e aos sábados, às 11h, na Pituba.

Para o futuro, a ambição de Odre é transmitir seu legado. Com esse intuito, desenvolveu um método de formação de professores, com material didático, para repassar seus conhecimentos.

"Eu tenho pronto o método para treinar professores, com tudo para passar minha herança. Hoje, tenho uma herdeira em Alagoinhas, a Cris, que faz um trabalho bonito com o pole circus e seguiu por outras coisas de circo, como a lira. Por aqui, ainda não tenho herdeiros", avalia.

Nas aulas, a diversidade das turmas é um destaque a mais. Odre ressalta que já teve alunos com idades entre 9 e 60 anos.

"Uma delas veio com a neta para conhecer, acabou curtindo e fazendo aula também. A gente se divertiu, a vovó fez junto. Eu vi que tinham várias pessoas numa idade que não é a de 'só vai mocinha'. Foi muito legal, porque a maioria das alunas que eu atendia aos sábados tinha mais de 40 anos".

Apesar de todos esses ganhos, Odre sente que parte da sociedade ainda carrega uma visão estereotipada sobre o pole. "Ainda tem gente que associa o pole dance a striptease, a dança erótica, a show de boate", lamenta.

"Essa parte de confundir com uma arte erótica, de sedução persiste. 'Mas você vai dançar com o seu namorado?' Não, vou fazer uma atividade física", frisa.

Recomendação vital

A rotina de atleta, artista e professora não é fácil. Para isso, Odre se cerca de precauções, como musculação e alongamentos constantes. Ela entende que é esse preparo físico o que faz a "máquina" — o corpo — continuar funcionando bem.

Se exercitar regularmente é a recomendação médica, inclusive, mas não há indícios de que esse comportamento seja predominante. A última Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em 2019, mostrou que apenas 35,7% dos idosos da Bahia praticavam o mínimo de 150 minutos de atividade física por semana. Uma nova edição do estudo deve ser concluída até o final deste ano.

Esses 150 minutos semanais são previstos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), tanto para adultos quanto para idosos. O exercício precisa ser aeróbico moderado ou feito em 75 minutos de forma intensa. Ainda há, para idosos com mobilidade reduzida, a recomendação de ações voltadas ao equilíbrio e prevenção de quedas em três ou mais dias por semana.

O que dizem os especialistas?

Fabiana Costa, professora de educação física há 25 anos, explica que um dos impactos que a atividade física tem no cotidiano da terceira idade é justamente a possibilidade de socializar com outras pessoas. "A socialização é muito importante. O idoso, quando vai praticar, é acolhido pelas pessoas que frequentam os mesmos ambientes. Então, melhora a sua autoestima, dá mais vontade de viver, conversar sobre diversas coisas que, às vezes, em casa não é possível", afirma a especialista.

Ela conta que, com o exercício, a autonomia é um dos primeiros fatores a serem notados. Isso porque o idoso adquire mais autonomia e força para dar conta da rotina.

Aos enfermos, a professora explica que a atividade física também é a solução. "A atividade física, reduz os sintomas de depressão, hipertensão, colesterol alto, osteoporose e outros. Ela fortalece os ossos, músculos e produz hormônios que com a idade, o idoso deixa de fabricar", descreve.

Como Fabiana detalha, a atividade é essencial para a retomada do prazer em viver, pois o corpo volta a produzir mais serotonina, dopamina e outros hormônios associados ao bem-estar. Consequentemente, há melhora na qualidade de vida.

"Aí ele pode comer um docinho, tomar uma cervejinha, um vinho".

A professora ainda ressalta que investimento financeiro não é requisito essencial para se exercitar com frequência. Dá para fazer caminhadas, exercícios simples, como sentar e levantar do sofá de casa, e até improvisar pesos.

Nesse sentido, as plataformas digitais podem servir como aliadas. "No YouTube, tem muitas orientações de atividade física para idosos que eles podem olhar. Hoje, o acesso pode ser feito com o celular", complementa.

Autonomia e independência

Aos 87 anos, a servidora pública aposentada Edrvigetha Bahia Borba ou Dona Edri, como é conhecida, é um exemplo de inspiração para quem ainda sente receio em fazer atividade física na terceira idade. Sinônimo de independência, ela vive só e, diariamente, sobe sete andares até chegar em seu apartamento — feito que só é possível graças aos 60 minutos diários que dedica à academia, segundo ela.

Dos 44 anos aos 57 anos, Edri foi maratonista fundista, tipo de atleta especializada em corridas de longa distância. Mas nunca deixou de se exercitar, mesmo trinta anos após se afastar da prática.

Hoje em dia, o foco dela é na musculação. Depois da pandemia, Edri precisou fortalecer os músculos que não acompanhavam seu bom condicionamento físico, como conta seu personal trainer Marcus Vinycius Borges.

"Ela chegou bem condicionada, no sentido da parte cardiovascular. Não ficava cansando. Mas, na parte neuromuscular, chegou muito fragilizada, com massa magra baixa", lembra Borges.

Disciplinada, a servidora aposentada reconhece os benefícios da atividade. O objetivo dela é um só: permanecer independente e autônoma, como sempre foi.

"Eu faço tudo sozinha. Vou na rua, volto e sinto muita disposição. As pessoas deveriam se movimentar, principalmente com essa idade. A gente tem que se movimentar, porque senão vai ficar como? Eu não estaria com 87 anos assim como eu estou, se eu não me movimentasse desde os 44".

Experiente na recuperação física de idosos, Borges aponta que o primeiro ponto de atenção a ser observado é o equilíbrio. O passo seguinte é avaliar as necessidades de cada aluno para garantir um bom progresso. "Cada dia que você malha é um comprimido a menos que você toma", aconselha.

*Estagiário sob orientação da editora Ailma Teixeira

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