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Investimentos de empresas estrangeiras colocam o Sul de MG na disputa global por terras raras; entenda

02/10/2026

Investimentos de empresas estrangeiras colocam o Sul de MG na disputa global por terras raras; entenda

O Planalto de Poços de Caldas atrai mineradoras por possuir depósitos de terras raras em argila iônica na superfície. Isso torna a extração mais barata.

Estimativas apontam que o depósito pode atender até 20% da demanda global por estes minerais críticos.

A Lynas anunciou na quarta-feira (30) a compra do projeto Caldeira, da Meteoric, por R$ 3,5 bilhões. O negócio visa controlar o projeto de terras raras em Caldas (MG).

Além do projeto Caldeira, as australianas Viridis e Power Minerals desenvolvem projetos de exploração de terras raras em Poços de Caldas (MG).

A Agência Nacional de Mineração (ANM) recebeu cerca de 100 pedidos de autorizações para pesquisa de terras raras na região.

A busca global por minerais usados em tecnologias de energia limpa e equipamentos de alta tecnologia colocou o Sul de Minas no centro da corrida internacional pelas terras raras. Na região do Planalto de Poços de Caldas, várias empresas estrangeiras mantêm projetos de pesquisa, exploração e desenvolvimento de minas em diferentes estágios.

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Na quarta-feira (30), a Lynas Rare Earths anunciou um acordo para adquirir a Meteoric Resources por cerca de A$ 968 milhões (aproximadamente R$ 3,5 bilhões, na cotação atual). Com a operação, a empresa australiana passará a controlar o projeto Caldeira, de terras raras, em Caldas(MG).

A australiana Meteoric foi uma das primeiras empresas estrangeiras a fazer aquisição de projetos de exploração de terras raras na região, juntamente com a também australiana Viridis Mining and Minerals, em 2023. Ambos os projetos estão em fase de licenciamento ambiental e têm previsão de iniciar operação em 2028.

Em abril deste ano, outra empresa australiana, a Power Minerals, concluiu a compra do projeto de terras raras "Morro do Ferro", em Poços de Caldas (MG), por cerca de R$ 80 milhões e segue fazendo pesquisas de exploração.

A região também passou a despertar o interesse de empresas de outros países que buscam garantir acesso futuro aos minerais estratégicos, seja por meio de aquisição de área de exploração ou da compra dos minerais.

Segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), em 2025, havia 1.882 autorizações para pesquisa de terras raras no Brasil, sendo que 361 eram em Minas Gerais. Cerca de um terço dos pedidos mineiros estava concentrado na região de Poços de Caldas.

A movimentação ocorre em um momento de disputa internacional pelo controle da cadeia de terras raras e quebra do monopólio da China, que concentra cerca de 70% da produção mundial e quase 90% do processamento e da fabricação de ímãs. Estados Unidos e União Europeia estão na frente dessa corrida por fornecedores destes minerais críticos.

Mas por que o Sul de Minas se tornou tão importante nessa disputa? O g1 preparou 8 perguntas para explicar o que as empresas estrangeiras estão buscando na região:

O que são terras raras e por que elas são tão importantes?Por que o Sul de Minas entrou no radar internacional?Qual é o tamanho do potencial mineral da região?Quais empresas estrangeiras estão investindo na região?Por que empresas australianas estão tão presentes?O interesse estrangeiro termina na Austrália?O Sul de Minas pode abastecer quanto do mercado mundial?Por que o momento atual é considerado estratégico para o Brasil?

1. O que são terras raras e por que elas são tão importantes?

Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos utilizados em diferentes setores da indústria e da tecnologia. Entre eles estão o neodímio, o praseodímio, o térbio e o disprósio. Alguns desses elementos são fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, utilizados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.

A procura por esses minerais aumentou com a expansão de tecnologias associadas à transição energética e com a necessidade de países como Estados Unidos e integrantes da União Europeia de reduzir a dependência da cadeia produtiva concentrada na China.

2. Por que o Sul de Minas entrou no radar internacional?

O Planalto de Poços de Caldas, que engloba áreas de Poços de Caldas, Caldas e Andradas, em Minas Gerais, e de Águas da Prata, em São Paulo, reúne características consideradas favoráveis à ocorrência de terras raras. A estrutura geológica da região foi formada a partir de atividades vulcânicas há milhares de anos. A caldeira resultante deste vulcão extinto possui depósitos em argilas iônicas, nas quais os elementos são abundantes e podem ser encontrados próximos à superfície.

A jazida tem se destacado mundialmente pela sua extensão e alta concentração de terras raras. Outro diferencial é que os elementos estão em argila iônica, o que permite a exploração em minas a céu aberto, o que torna o processo mais fácil e mais barato que em outras minas existentes fora do Brasil.

3. Qual é o tamanho do potencial mineral da região?

A dimensão exata dos recursos ainda depende dos estudos realizados em cada área, mas o conjunto do Planalto de Poços de Caldas é considerado uma das principais regiões brasileiras para pesquisa de terras raras. Segundo o geólogo Álvaro Fochi, responsável pela identificação de uma das jazidas na região, no início dos anos 2010, a cratera de aproximadamente 800 km² poderia gerar até 300 milhões de toneladas de terras raras.

Esse número, porém, não significa que todo esse volume esteja disponível para exploração comercial. Cada projeto precisa passar por pesquisas, estimativas de recursos, estudos de viabilidade e licenciamento antes de uma eventual produção.

4. Quais empresas estrangeiras estão investindo na região?

Três grupos australianos têm projetos já estruturados na região. A Meteoric desenvolve até o momento o Projeto Caldeira, em Caldas, que está em negociação com a Lynas Rare Earths. O empreendimento pretende explorar uma área de 425 hectares, que possui recursos minerais estimados em 128 milhões de toneladas e, segundo a empresa, reúne 802 mil toneladas de óxidos de neodímio e praseodímio e 41 mil toneladas de óxidos de disprósio e térbio. A Lybas estima uma produção média anual de 3.862 toneladas de NdPr (neodímio e praseodímio) e 127 toneladas de DyTb (disprósio e térbio) ao longo da vida útil do projeto.

A Viridis Mining and Minerals desenvolve o Projeto Colossus, em Poços de Caldas em uma área de 373 hectares. Quando estiver totalmente implantada, deve movimentar 5 milhões de toneladas de argila por ano, gerando uma média de 2.843 toneladas anuais de neodímio-praseodímio (NdPr), em uma expectativa de 40 anos de atividade no local. A empresa prevê investimento de cerca de R$ 1,7 bilhão até o início do funcionamento da mina. No quarto trimestre de 2025, anunciou outros R$ 132,5 milhões em investimentos, incluindo recursos destinados à aquisição de área, um laboratório de reciclagem de superímãs e a um laboratório de extração de terras raras.

A Power Minerals adquiriu, por cerca de R$ 80 milhões, a empresa responsável pelo projeto Morro do Ferro, em Poços de Caldas. Em 2026, a companhia australiana anunciou um primeiro alvo de exploração com potencial estimado entre 9,2 milhões e 10,7 milhões de toneladas e iniciou uma nova campanha de sondagem.

5. Por que empresas australianas estão tão presentes?

A Austrália detém a quarta maior reserva mundial de terras raras (cerca de 5% do total global) e atua como um dos principais produtores do setor fora da China. É um dos países que buscam ampliar sua participação na cadeia global de minerais críticos. No caso do Sul de Minas, as empresas australianas encontraram uma combinação de potencial geológico e possibilidade de inserção em um mercado internacional que procura novas fontes de terras raras.

A movimentação também mostra que o interesse estrangeiro não se limita à construção de minas. As empresas procuram desenvolver tecnologias de processamento, realizar testes com amostras e estabelecer contratos com possíveis compradores.

6. O interesse estrangeiro termina na Austrália?

Não. A produção prevista para os projetos do Sul de Minas já desperta interesse de empresas de outros países.

No caso do Caldeira, por exemplo, a Meteoric assinou um memorando de parceria estratégica com a sul-coreana POSCO International Corporation, que prevê a possibilidade de aquisição de até 30% da produção do projeto por um período de até sete anos. A empresa também mantém um memorando de entendimento não vinculante com a americana Ucore Rare Metals para testes técnicos relacionados à separação do material produzido a partir do Caldeira. O acordo, segundo as informações divulgadas pela companhia, não representa um contrato de venda ou fornecimento. A companhia também enviou amostras do material produzido a partir do projeto para empresas dos Estados Unidos, Europa e Ásia, para testes técnicos e possíveis negociações comerciais.

A Viridis também já enviou amostras de minério e de carbonato misto de terras raras para a Austrália e países da Europa, com o objetivo de apoiar o desenvolvimento do Projeto Colossus, incluindo análises do minério para definição da rota de processo e tratativas relacionadas a acordos de compra de produção futura.

Além das mineradoras australianas presentes no Sul de Minas, a estadunidense USA Rare Earth firmou um acordo para adquirir participação na mineradora Serra Verde, responsável por uma mina de terras raras em Minaçu (GO), em uma transação avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões. O negócio prevê a combinação das operações das duas companhias para criar uma cadeia completa de produção.

7. O Sul de Minas pode abastecer quanto do mercado mundial?

Não totalmente. Estimativas apontam que a região pode suprir cerca de 20% da demanda global por terras raras, mas a confirmação deste potencial depende da viabilidade de cada projeto.

Em apenas 15% da área da caldeira de Poços de Caldas foram identificados 2 bilhões de toneladas de argila com íons de terras raras. De acordo com estudos das mineradoras, essa quantidade garante 20 anos de mineração.

No caso do projeto Caldeira, a Meteoric estimou capacidade para produzir cerca de 12,5 mil toneladas de óxidos de terras raras por ano e afirmou que o empreendimento poderia atender aproximadamente 8% da demanda mundial.

O Projeto Colossus, da empresa Viridis, possui reservas minerais totais estimadas em 200,1 milhões de toneladas, suficientes para sustentar uma operação de cinco milhões de toneladas anuais por 40 anos.

Os números de potencial geológico da região, porém, não devem ser confundidos com produção efetiva. Para que um depósito se transforme em uma mina, são necessários estudos, investimentos, licenciamento e comprovação de viabilidade econômica.

8. Por que o momento atual é considerado estratégico para o Brasil?

Brasil tem 2ª maior reserva de terras raras do mundo, mas só 1% da produção global. Em setembro foi sancionada a lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação busca incentivar o processamento desses materiais no país e determina que parte das receitas do setor seja destinada à inovação e pesquisa. O documento prevê até R$ 7 bilhões em incentivos para projetos na área.

A corrida internacional pode trazer investimentos que vão além da extração, mas também para pesquisa, processamento, desenvolvimento tecnológico, produção e reciclagem de super ímãs.

Ao mesmo tempo, a expansão da atividade aumenta a necessidade de avaliar os impactos ambientais e sociais dos projetos. No Planalto de Poços de Caldas, por exemplo, os projetos estão em áreas próximas a comunidades, unidades de conservação e, no caso do Caldeira, a uma antiga unidade de mineração de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que passa por processo de descomissionamento e abriga cerca de 12 mil toneladas de resíduos radioativos.

A proximidade levantou questionamentos sobre riscos radiológicos por parte da comunidade e organizações de proteção ambiental, o que levou a uma determinação da Justiça Federal para uma nova avaliação técnica sobre os riscos do empreendimento.

Em setembro, o subprocurador-geral do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União, Lucas Rocha Furtado, também solicitou que o TCU realize uma auditoria operacional sobre a exploração de terras raras no Planalto de Poços de Caldas, envolvendo os projetos Caldeira e Colossus e os impactos cumulativos desses projetos sobre a água, o solo e a saúde pública.

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