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Justiça pede laudo antropológico em caso de pai e filho presos por matar jovem que acreditavam ser 'canaimé' em Roraima

06/11/2026

Justiça pede laudo antropológico em caso de pai e filho presos por matar jovem que acreditavam ser 'canaimé' em Roraima

Pai e filho são suspeitos de matar jovem acreditando que ele era 'canaimé'

A Justiça determinou a elaboração de um laudo antropológico para averiguar as particularidades do caso envolvendo dois indígenas, pai e filho, presos por matar José da Silva Santana, de 25 anos, na comunidade Caracaranã, em Uiramutã, no Norte de Roraima.

Os suspeitos, Erinel Clementino, de 63 anos, e o filho dele, Francinildo Clementino, de 25, disseram à polícia que mataram José por acreditar que ele era o “canaimé”, uma figura maligna na crença indígena. O crime foi na comunidade Caracaranã, em Uiramutã.

O g1 tenta localizar a defesa dos suspeitos.

Entenda: na crença indígena, o canaimé é visto como um ser do mau, uma figura associada a poderes sobrenaturais e à prática de feitiços, rezas e venenos que pode causar sofrimento ou morte. Segundo a crença, ele pode ficar invisível ou se transformar em animais para perseguir e atacar pessoas, geralmente à noite. Além disso, quando mata alguém, o canaimé rasga e enfia folhas dentro do corpo da vítima.

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O estudo foi solicitado pelo juiz plantonista da Vara Criminal de Pacaraima, Marcelo Batistela Moreira. Os dois tiveram a prisão em flagrante convertida em preventiva e permanecem presos.

Na decisão, o magistrado destacou a necessidade do laudo antropológico "para melhor e mais aprofundada identificação e conhecimento acerca dos custodiados como pessoa indígena, sua etnia e sua língua/idioma indígena". O material deve ser elaborado por especialista a ser nomeado pela Justiça.

Entenda: Laudo antropológico, também chamado de perícia antropológica, é um documento técnico elaborado por um profissional da área da Antropologia. Ele serve como uma prova técnica para ajudar a Justiça a compreender aspectos culturais, sociais, históricos e de identidade relacionados às pessoas envolvidas em um processo.

Pai e filho respondem pelo crime de homicídio triplamente qualificado. O assassinato ocorreu na comunidade indígena Caracanã, em Uiramutã, ao Norte, nessa terça-feira (3).

Ele também determinou que a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a liderança da comunidade dos suspeitos sejam comunicados para participar das movimentações no processo.

Prisão mantida na audiência de custódia

Na audiência, o juiz manteve pai e filho presos. Ele entendeu que a gravidade do crime, a violência empregada contra a vítima e o risco à ordem pública justificavam a prisão preventiva. Ele também considerou que medidas cautelares alternativas seriam insuficientes neste momento.

"Pela violência e o modo de agir em relação à vítima e a própria gravidade concreta do suposto delito", disse em trecho da decisão, acrescentando que "a medida [prisão] é imperiosa para melhor análise e mais ampla elucidação étnica, cultural e situacional do caso concreto".

Requintes de crueldade

José foi assassinado com requintes de crueldade: foi atingido por um tiro na cabeça, golpeado com uma foice e uma faca. Depois, o corpo foi incendiado. Ele também foi decapitado. Parte do crime foi registrado em vídeo.

Após a confissão dos suspeitos, o delegado do caso, Arthur França, autuou os dos dois por homicídio qualificado por motivo fútil, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Além disso, também respondem pelos crimes de destruição e ocultação de cadáver e posse irregular de arma de fogo de uso permitido.

A Polícia Militar apreendeu uma espingarda e uma foice na casa dos suspeitos, e uma faca no local do crime. Além disso, os suspeitos atearam fogo no corpo da vítima.

Em depoimento à Polícia Civil, Francinildo afirmou que atirou contra a vítima com uma espingarda calibre .28, que pertencia ao pai, Erinel. Ele disse que a vítima corria no momento do disparo e foi atingida na região da nuca e da cabeça.

O pai confirmou que o filho fez o disparo. Ele afirmou que, depois que a vítima caiu, usou uma foice para dar dois golpes no pescoço e cerca de três no abdômen. Segundo a versão apresentada por ele, o jovem já estava morto quando recebeu os golpes.

Ainda em depoimento, Erinel disse que a ordem para atear fogo no corpo partiu de um segurança da comunidade, identificado por ele como "Osmar". O suspeito relacionou a decisão a uma suposta "puçanga", que seria amuleto enfeitiçado que pertencia à vítima.

Além disso, segundo o depoimento de Francinildo, José foi capturado por integrantes da comunidade e levado inicialmente para a comunidade Flexal, onde seria ouvido por lideranças sobre ser o canaimé. No entanto, ele conseguiu escapar.

Depois, José foi localizado novamente. Francinildo disse ainda que familiares e integrantes da comunidade já haviam decidido matá-lo. Já Erinel apresentou outra versão: disse que a decisão de matar José ocorreu no momento da captura.

A Polícia Civil segue em investigação para descobrir se houve a participação de outras pessoas no caso.

O assassinato

A Polícia Militar foi até a comunidade Caracaranã por volta das 14h de terça após receber denúncia que havia ocorrido o homicídio. No local, agentes foram guiados por moradores até o corpo de José. Após confirmar a morte, a equipe isolou a área e iniciou buscas para localizar os suspeitos.

Conforme o depoimento dos suspeitos, a dupla levava a vítima da comunidade Flexal quando ela tentou fugir, e eles o mataram.

De acordo com a PM, a versão apresentada pelos suspeitos foi reforçada por vídeos gravados por eles mesmos. As imagens foram compartilhadas em grupos de WhatsApp. Em um dos vídeos, José aparece confirmando ser o canaimé e diz ter a "capacidade de se transformar em animais."

A Polícia Civil de Pacaraima foi comunicada sobre o caso por volta das 20h de terça. A perícia criminal e o Instituto Médico Legal (IML) foram acionados e chegaram à comunidade por volta das 14h55 desta quarta-feira (4). O caso foi registrado como homicídio qualificado por motivo fútil.

Armas apreendidas pela Polícia Militar

Arquivo pessoal

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