“O Outro Lado das Redes” estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (22), numa ótima hora.
Escrito e dirigido por Aaron Sorkin (“A Rede Social” e “Os 7 de Chicago”), o longa reconstitui os bastidores de um caso emblemático: a investigação jornalística “The Facebook Files”, publicada pelo "The Wall Street Journal" em 2021, que revelou documentos internos e criminosos do Facebook.
O filme remonta, de maneira instigante, a saga da apuração feita pelo repórter Jeff Horwitz, que teve acesso a informações sigilosas vazadas por Frances Haugen, na época, engenheira do Facebook. É a partir desse material que ele revela algo que, hoje, todos sabemos.
O algoritmo da rede social priorizava distribuir conteúdos extremistas, conhecidos como rage bait (“iscas de raiva”), para gerar mais engajamento, prolongar o tempo de tela dos usuários e, consequentemente, aumentar os lucros da empresa.
Essa decisão consciente favoreceu a disseminação de discursos de ódio contra minorias e muita, muita desinformação.
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O elenco reúne Jeremy Allen White, protagonista de “The Bear”, no papel de Horwitz. Mikey Madison, vencedora do Oscar por “Anora”, como Haugen, e Jeremy Strong, de “Succession”, na pele de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook e atual CEO da Meta (Instagram, Whatsapp, Threads, Messenger).
A discussão ganha ainda mais eco no Brasil neste período eleitoral, na qual as redes do magnata americano têm sido acusadas de desequilibrar o debate político.
Com o segundo turno das eleições presidenciais marcado para domingo (25), o tema é urgente.
A peleja nossa de todos os dias
Assim como toda apuração jornalística, “O Outro Lado das Redes” começa no momento zero. É só depois disso que o filme vai se desenrolando, à medida que o repórter encontra novas e novas pistas, até conseguir estabelecer o fio completo da investigação. É a peleja de todos os dias vivida por quem é repórter.
Horwitz é um personagem curioso: um jornalista que não entende nadinha de tecnologia (é setorista de política), e tem dificuldades até de mexer no Waze do celular. E isso é importante para toda a sua construção, porque ele precisa aprender a lidar com termos e códigos dificílimos da área. O que lhe sobra é o faro: de desconfiar, perguntar, insistir.
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Frances é quem fornece os documentos que o ajudam a, enfim, revelar como o Facebook escolheu lidar com conteúdos odientos, ameaças e publicações mentirosas. É ela quem revela como, de forma proposital, o algoritmo da rede "encurralava" milhões e milhões de usuários até páginas de direita.
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Sorkin alterna a narrativa entre 2019 e 2021, atravessando a pandemia de coronavírus e mostrando como as fake news influenciaram aquele período. Em uma das cenas, uma mulher se recusa a usar máscara dentro de um supermercado. Em outra, um homem afirma, durante uma conversa num bar, que o vírus seria causado por torres de 5G. Os dois haviam lido essas informações no Facebook.
São diálogos fictícios, ambientados nos Estados Unidos, fazem lembrar o que vivemos no Brasil nos últimos anos.
Atuações sustentam história
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Mikey Madison vai muito bem como Frances, uma nerd extremamente correta, tímida e com certa dificuldade de articulação.
Jeremy Allen White dá vida a um jornalista sagaz e incansável, disposto a esticar a corda e comprar briga até com editores e chefes do jornal, que em alguns momentos hesitam em levar a apuração adiante.
Jeremy Strong, por sua vez, está ótimo como a nova versão de Zuckerberg. Em “A Rede Social”, filme que funciona como antecessor deste, o papel coube a Jesse Eisenberg, cuja atuação lhe rendeu indicações ao BAFTA, ao Globo de Ouro e ao Oscar.
Strong reproduz com precisão os trejeitos e o jeito quase robótico do empresário, sem transformar o personagem em caricatura ou esquete de humor.
Blindados contra a imprensa?
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“O Outro Lado das Redes” poderia dividir a prateleira com “The Post — A Guerra Secreta” e “She Said (Ela Disse)”, filmes recentes que mostram como grandes investigações jornalísticas, em diferentes épocas e lugares do mundo, ajudaram a mudar o curso da história.
Todos poderiam ser exibidos nos primeiros períodos do curso de Jornalismo, além de dois clássicos sobre mídia e imprensa que completam 50 anos em 2026: "Rede de Intrigas" e "Todos os Homens do Presidente".
Uma cena especialmente simbólica mostra o empresário em um escritório protegido, com sofás e monitores à prova de balas. Em outra sequência, mais a frente, ele recebe a notícia de que o jornal levará adiante a investigação e publicará uma série de reportagens sobre o Facebook.
Ao longo da trama, o roteiro constrói a imagem de um Zuckerberg aparentemente intocável, assim como a da classe política que se beneficia desse tipo de discurso e ajuda a protegê-lo. O desfecho do filme mostra que eles não são.



